Estava uma noite à andar pelos canais, esperando mais um dia chegar ao fim. Fim de uma longa jornada. O que pretendo fazer dos dias que me restam? O que desejaria das minhas últimas horas de vida? Qual meu maior desejo? Que fiz do tempo em que vivi? Amei o bastante? Cantei, abracei e falei tudo o que queria? Pedi perdão e perdoei? Afaguei meus bichinhos com amor suficiente? Falei menos e escutei mais? Usei minhas palavras pra fortalecer quem me rodeia? Ajudei mais e critiquei menos? Admirei a natureza que me rodeia? Ouvi os pássaros cantando em meio ao barulho dos motores? Afinal, eu vivi?
Algo pra se pensar enquanto vivo. Sempre são nossas últimas horas. Quando os vermes estiverem nos comendo e nossa unidade estiver se juntando aos minerais da terra, pensar já não se fará necessário. Enquanto caminho eu penso.
Mais em frente paro e começo a observar a corrente no canal. Uma dança hipnotizante de águas num fundo negro. Enquanto me embalo nessa dança sinto a brisa me acariciando as poucas partes descobertas da minha face. Os pensamentos começam se acalmar e passo a descobrir algo parecido com o "nirvana". O fundo negro do canal toma conta de meus pensamentos. Tudo parece evoluir quando percebo uma sombra humana de um gigante, ou seria sobre-humana, ao meu lado direito. Tendo me manter mas algo parecido com uma respiração canina, parece se aproximar. Quando tenho a impressão de sentir o calor desse hálito animalesco, já não pude me conter mais e em sobressalto, me virei. Uma figura paterna aparentando uns 83 anos, de aproximadamente 1,60cm de altura e uns 70kg, com fartos cabelos brancos sobre seu rosto marcado pela experiência me fixou com seus olhos pequenos mas tão pesados que me petrificaram.
"Você tem uma vida pra me emprestar?" me perguntou com uma voz tão calma como de quem pergunta pelas horas.
"Vida?!" Talvez nossa diferença de línguas tenham me feito traduzir errado a palavra.
"Sim, vida, life, la vie, vita, leben... A minha está se esgotando, preciso de outra. Se você não estiver usando a sua, poderia me dá-la".
Me mantive atônita. Só tinha forças pra manter meu músculo masseter firme pra minha mandíbula não despencar. Como um pequenino homem à primeira vista, tão indefeso e doce, me causava tanto temor ? Seriam palavras dignas da insanidade que certas doenças causavam com a chegada da idade?
"Não sou insano!!!" disse o senhor com um olhar que de tão profundo, achei que cheguei a ver a porta do inferno com labaredas de chamas.
Meu Deus! De tão alto que pensei ele escutou!
"Deixe me apresentar... meu nome é Leigh. Tenho pouco tempo pra conversar. Já se aproxima da meia noite. Preciso me apressar. Você não respondeu minha pergunta."
"Praz..." estendi a mão num ato instantâneo e impensado, mas tarde demais. Quando ele tocou em minha mão, minha alma se congelou. Um formigamento se apoderou de mim por alguns segundos. "Meu nome é..."
"Eu sei seu nome..." disse enquanto apertava educadamente minha mão.
Minha expressão deveria ser das piores. Já não conseguia mais raciocinar direito. O que era tudo isso?
"Então, minha querida, posso pegar a sua? Tenho te observado à tempos e percebo que não se importa muito com ela. De todas que já levei, acho que a sua me traria a maior satisfação. Nesse mundo coleciono aquelas que tudo tiveram e puderam e ainda assim não entenderam seu sentido. Acabam por fazer que sua vida passe em branco. Pois bem, você, 30 anos, nunca acreditou no amor, achava que tudo não passava de ações de hormônios e feromônios no cérebro. Não se interessou pela continuidade da vida pois filhos lhe tirariam a liberdade. Não fincou raizes e nada plantou. Queria a vida tão livre que de tanta liberdade se perdeu. Pois bem, dê-me ela... tenho planos infinitos..."
"Nunca!!! Não entendo como pode saber tudo isso, mas não!!! Eu devo estar no limite da loucura, à borda do precipício da insanidade. Mas eu amo a vida mais do que nunca. Quero tentar recuperar tudo o que deixei pra traz. Não vou desistir dela assim. Quero ver o sol raiar amanhã e trazendo o cheiro do orvalho da madrugada que se evapora lentamente. Quero me aquecer nos braços de quem amo e perceber a vida em cada ser que vibra nesse mundo..."
"Belas palavras pra quem ensaiava à alguns minutos um salto sem volta ao fundo do canal..."
Perplexa, segurei minha respiração. Isso mesmo, eu estava prestes à tal ato. Premeditei o fim. Quem era esse homem? Um anjo caído? Mensageiro da morte? Ou apenas um louco?
"Meu tempo se esgota e o seu também, não posso mais esperar... me dê... rápido"
Senti um desejo maior do que nunca de viver. Seja quem fosse esse ser, divino ou diabólico, despertou-me uma fome de vida, um temor imenso em perdê-la que lutaria até o fim por ela.
"Sinto muito se cheguei à esse limite de desespero onde premeditei o fim de minha vida. Mas agradeço ao senhor por me mostrar que meu amor por ela é maior do que seu desejo em apossa-la..."
Um grunhido animalesco e enfurecido saiu do fundo de sua garganta enquanto elevava seus braços ao alto e ajoelhava na calçada histórica daquele local que presenciou séculos de fatos mas talvez nada como aquilo. Ajoelhado, cabisbaixo, foi erguendo lentamente sua cabeça. Seu olhar já não era pesado, mas de uma brandura que me acalmava. Sua imagem foi instantaneamente evaporando como uma fumaça negra até desaparecer em segundos. Fechei meus olhos com as mãos, respirei fundo e fui abrindo aos poucos. Nada. Vierei e procurei por todos os lados. Ele desapareceu. Suspirei e antes que pudesse pensar em qualquer coisa um sussurro em meus ouvidos:
"Vivaaa..."
Olhei novamente a correnteza do canal e senti uma paz profunda. Já não havia ninguém nas ruas e pude apreciar a beleza das luzes solitárias que refletiam na água. Que teria sido tudo isso? Minha cabeça querendo me pregar peças?! Já é tarde, passado 2 minutos da meia noite. Caminhei em direção à casa. Sorria.
"Amanhã é um mais um grande dia"...
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