segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Boa Noite!

Acordo aos gritos de desespero em meio à escuridão . Meu corpo molhado e meu rosto pálido denunciam meu terror. Demoro segundos que me parecem eternos, apoiando o peso de minha cabeça sobre os cotovelos em meu colchão, que mais me parecia um caixão, com a respiração ofegante e insuficiente para insuflar todo o meu pavor interno. O único som que me envolve é de meus batimentos cardíacos que parecem testar o limiar de meus tímpanos. Esses primeiros instantes de toda essa descarga adrenérgica deixa-me completamente desorientada. Não poderia reconhecer meu quarto. Fecho os olhos, respiro lentamente, tento me controlar mas o cheiro do medo que paira no ar não me permite calma. Abro os olhos lentamentes. Olho ao redor e tento reconhecer o ambiente. Estou deitada sobre uma grande cama de casal, com lençois de cetim de um tom claro mas não consigo destinguir exatamente a cor devido a penumbra em que se encontra o quarto. Ao meu lado direito uma grande janela que une o chão ao teto de algo em torno de 2m, com grande cortinas de voal que se movimentam devido a passagem da brisa noturna de uma das partes entreabertas.
Continuo a exploração. Observo a presença de um grande quadro vertical com uma figura feminina, uma escrivaninha em estilo muito provenciano com pilhas de papéis, tinteiros e um mata-borrão sobre sua superfície. Noto a presença de um candelabro ao chão. Estranhamente, quando chego à parte esquerda do quarto, nada posso ver além de um relógio marcando 3 horas e 15 minutos. O restante da parede me parece de um breu total.

Num impulso de coragem misturada com inconsequência, retiro-me da cama e coloco os pés no chão. Tenho a impressão de mergulhar meus pés em água. Olho para baixo mas o chão está coberto de uma névoa branca. Reparo na longa camisola de algodão que cobre meu corpo ainda gélido pelo suor. Lembro então do candelabro perto da escrivaninha. Começo a caminhar e agora tenho certeza da água no chão. À medida que caminho, o som de meus passos sobre a água ecoam pelo quarto. Abaixo-me e toco o candelabro. Sinto seu calor como que se tivesse sido usado recentemente. Acendo-o e aos poucos sua chama fraca vai aos poucos revelando-me cenas que nunca em minha sã consciência poderia criar.

Na parede esquerda, antes incógnita, agora percebo um grande espelho emoldurado em madeira talhada com cabeças angelicais e ornamentos ao estilo Luís XV. O relógio ainda continua à marcar 3h 15min. Caminho em sua direção, segurando a luz à altura de meus olhos, margeando a cama. Ao alcançar o espelho, vejo parte do quarto iluminado refletido. Mas não entendo a ausência de meu reflexo. Talvez uma brincadeira de ilusão de ótica plantada para testar as reações das pessoas. Fixo o olhar e elevo minha mão livre e com mais um passo toco o espelho. A sensação elétrica percorreu em cadeia todo meu corpo. Uma dor extrema golpeou meus rins pelas costas. Não pude me conter e mergulhada na dor, abaixei e encolhi como em posição fetal derrubando o candelabro que se apagou.

Instantâneamente, a dor desapareceu. Abri os olhos e apalpei o chão procurando o candelabro. Acendo-o novamente e olho à frente. Não conseguia entender. Agora eu estava olhando para o quarto em outro ângulo, da esquerda para a direita. Vou em direção à cama mas um vidro me impede. Bato continuamente forçando minha passagem, em vão. Olho para atrás e nada vejo além da escuridão de uma parede de tijolos antigos. Estava enclausurada num espaço de não mais que 2m quadrados. Tateio todo lugar. Grito à pedido de ajuda. Toda minha sensação de terror inicial se apodera de mim novamente. Em minha consciente vulnerabilidade, me acalmo e choro. Um choro de criança. Sento de frente ao vidro e abraço meus joelhos e choro. De repente, vejo a presença de alguém na cama à se levantar em sobressalto. Em meio as lágrimas também me levanto. Vejo uma mulher de costas com a respiração ofegante. Abaixo-me e pego a luz para visualizar melhor.

Olho à frente e me deparo com a mulher me fixando com seus olhos lagrimosos, num vestido de algodão e segurando um candelabro. Sou eu!!! Seus olhos de espanto são os meus! Apenas meu reflexo!?

Lentamente, seco as lágrimas, ajeito meus cabelos emaranhados pelo suor, respiro fundo e e murmuro:

"Apenas um pesadelo... "

O relógio marcava 3h 15 min.

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