segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Renée Descartes: A Filosofia da Razão


O Mundo Matemático


Renée Descartes (ou Renato Cartesius, como ele assinava, em latim) nasceu em La Haye, Tourenne, em 1596. Sendo de família nobre, foi enviando para um colégio jesuíta em La Flèche, uma das mais célebres escolas da época. Recenbendo a melhor formação filosófica possível dentro das bases escolástica e humanista, com abertura também para o estudo das descobertas científicas da época e da matemática, nem por isso Descartes deixou de se sentir insatisfeito, pois achava a orientação tradicionalista da escola em gritante contraste prático com a visão de mundo que surgia do desenvolvimento científico (especialmente em Física e Astronomia) que pipocava em toda parte. O que mais o incomodava era a ausência de uma metodologia que abraçasse as idéias e as harmonizasse com uma práxis que conduzissem o estudioso numa forma que lhe possibilitasse guiar-se na "busca da verdade".O ensino de filosofia, em La Flèche, que era minsitrado tendo por modelo a escolástica medieval, que levava o espírito dos estudantes para o passado, frequentemente lá deixando-o. O resultado era uma espécie de incompetência intelectual e moral (envoltas em trajes de sabedoria), uma falta de preparo e de adaptabilidade eficaz para os problemas do presente. Isto levou Descartes a um incômodo impasse. Para ele o estudo intensivo de uma visão de mundo já ultrapassada seria como viajar. "Mas quando dedicamos tempo demais a viajar, acabamos nos tornando estrangeiros em nosso próprio país, de modo que aquele que é por demais curioso das coisas do passado, só valorizando o que já foi, na maioria das vezes torna-se muito ignorante das coisas presentes" (Descartes). E o "presente", na época de Descartes, era o do desenvolvimento do empirismo, da técnica da fabricação de relógios e outros instrumentos, do desenvolvimento da mecânica, do questionamento do poder clerical, do comércio, do florescimento do capitalismo. Mais do que tudo, era a época de um novo alvorecer: a época da Revolução Científica, cujos principais expoentes até então foram Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e Galileu-Galilei.O papel destes gênios na obra de Dscartes é visível: Copérnico pela coragem de desafiar (mesmo que postumamente, com a publicação de seus trabalhos no ano de sua morte) uma concepção geocêntrica muito cara à Igreja. Depois de Copérnico, a Terra deixou de ser o centro do universo para tornar-se mais um planeta. A revolução de tal "heresia" parece hoje difícil de ser bem avaliada, mas representou um profundo golpe na hegemonia do conhecimento científico, que estava nas mãos dos padres de Roma; Kepler, por formular suas célebres leis empíricas dos movimentos planetários, que veio a corroborar o sistema de Copérnico, e a demonstrar que o conhecimento da natureza poderia ser adquirido por meio de um trabalho laborioso indepenente do aval religioso; Galileu, por ser o real mentor da mudança de paradigma e visão de mundo da ciência de sua época. Ao dirigir seu telescópio para as estrelas, Galileu provou inconteste que a hipótese de Copérnico era uma teoria válida. Além disso, Galileu foi o primeiro a combinar sistematicamente a experimentação científica com o uso da linguagem matemática. Isso não foi feito apenas porque a matemática é a "linguagem com que Deus fez o universo", como dira ele, mas por que se prestava à perfeição para que hipóteses fossem divulgadas e compreendidas apenas por alguns poucos "iniciados", escapando, assim, da fiscalização inquisitorial. Como disse Fritjof Capra, "Os dois aspectos pioneiros do trabalho de Galileu - a abordagem empírica e o uso de uma descrição matemática da natureza - tornaram-se as características dominantes da ciência no século XVII e subisistiram como importantes critérios das teorias científicas até hoje".Para que os cientistas pudessem descrever a natureza em forma matemática, e, assim, poderem ter uma espaço para a discussão de suas idéias sem um grande risco ante os olhos de Roma, Galileu postulou que eles (os cientistas) deveriam se restringir ao estudo das propriedades essenciais dos corpos, ou seja, a todas as propriedadades que pudessem ser mensuradas: forma, quantidade, movimento. Tudo o mais deveria ser posto de lado. Embora esta abordagem tenha sido muito bem sucedida e tenha permitido o desenvolvimento da ciência, o seu lado negativo foi, como nos diz R. D. Laing, que "perderam-se a visão, o som, o gosto, o olfato e o tato, e com eles foram-se a sensibilidade estética e ética, a qualidade, os valores; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito. A experiência, como um fato vivido pelo sujeito, foi expulsa do domínio do discusso científico". Segundo Laing, nada mudou mais o nosso mundo do que a obsessão dos cientistas pela medição e pela quantificação (Capra, 1986).Foi nesse clima "Galileano" que Descartes respirou o ar que lhe moldaria o gênio. Depois de ter obtido o bacharelado em Direito, pela universidade de Poitiers, Descartes sentiu-se ainda mais confuso e decide se dedicar às armas e alista-se, em 1618, nas tropas de Maurício de Nassau (um nosso conhecido, que esteve no Nordeste do Brasil durante a ocupação holandesa na região), que na ocasião combatia contra os espanhois pela liberdade da Holanda. Por esta época, conhece um jovem físico e matemático, Isaac Beeckman, que o estimulou a estudar física.Aos 23 anos de idade, Descartes estava em Ulma, ao lado das tropas de Maximiliano da Baviera, quando, entre 10 e 11 de novembro de 1619, ele relata ter tido uma "revelação" ou iluminação intelectual, que iria marcar toda a sua produção a partir de então. Numa noite, após horas de reflexão sobre todo o conhecimento que havia adquirido até aquele dia, ele caiu numa espécie de transe sonambúlico e, então, teve um lampejo súbito onde via, ou melhor, percebia "os alicerces de uma ciência maravilhosa" que prometia ser um método para a unificação de todo o saber e que desenvolveria em sua produção, tendo sido cristalizada, em parte, em seu clássico "O Discurso do Método". A visão de Descartes despertou nele a crença na certeza do conhecimento científico por meio da matemática. Nos fala Capra que "A crença na certeza do conhecimento científico está na própria base da filosofia cartesiana e na visão de mundo dela derivada, e foi aí, nessa premissa fundamental, que Descartes errou. A Física do século XX mostra-nos convicentemente que não existe verdade absoluta em ciência, que todos os conceitos e teorias são limitados. A crença cartesiana na verdade infalível da ciência ainda é, hoje, muito difundida e reflete-se no cientificismo que se tornou típico de nossa cultura ocidental. O método de pensamento analítico de Descartes e sua concepção mecanicista da natureza influenciaram todos os ramos da ciência moderna e podem ainda hoje ser muito úteis. Mas só serão verdadeiramente úteis se suas limitações forem reconhecidas (...)." (Capra, 1986, p. 53).A certeza cartesiana é matemática. Descartes acreditava, partindo de Galileu, que a chave para a compreensão do universo era a sua estrutura matemática. Seu método, pois, consistia em subdividir qualquer problema a seus níveis mínimos, separar "as peças que constituem o relógio", reduzindo tudo até seus componentes fundamentais para, a partir dese nível, se perceber suas relações. Esse método é analítico e reducionista. Não aceita que um todo possa ser compreensível como uma totalidade orgânica ou que esta todo possa ter características que superem a mera soma de suas partes constituintes. Assim, ele negligencia um quebra-cabeças montado como sendo, em seu todo, um sistema significativo. Só a interrelação lógica das peças - se houver - é que, para o método cartesiano, nos dará uma compreensão de todo o quebra-cabeças, o que, convenhamos, é um absurdo quando tomado como regra geral, e não como regra para alguns fenômenos. Esta ênfase no método analítico tornou-se uma característica essencial do moderno pensamento científico. Foi ele que possibilitou levar o homem à lua, mas sua excessiva dominância nos meios científicos também levou à fragmentação características das especializações dos nossos meios acadêmicos, plenos de cientificismo, e no nosso pensamento em geral. Este método, tomando como um dogma, levou à atitude generalizada de reducionismo em ciência - a crença de que a compreensão de partes que constituem um todo (sem levar em conta inter-influências ambientais ou não lineares) podem ser adquiridas plenamente pela análise.Tendo se estabelecido em definitivo na Holanda, pela liberdade e tolerância desta terra à novas idéias, Descartes aceitou a sugestão do padre Marino Mersenne e do Cardeal Pierre de Bérulle para escrever um tratado sobre metafísica. Mas tal trabalho foi interrompido para escrever o seu Traité de physique. Entretanto, tomando conhecimento da condenação de Galileu por sua aceitação da tese copernicana, Descartes, que compartilhava da mesma e a expunha em seu Tratado, caiu em grande perturbação, e interrompeu o aperfeiçoamento da obra e/ou não divulgando-a. Superada esta fase, Descartes passou a se dedicar ao problema da objetividade da razão frente a Deus. Assim, entre 1633 e 1637, Descartes passou a fundir suas idéias metafísicas com suas pesquisas científicas, escrevendo seu livro mais famoso: O Discurso do Método, que fazia a introdução de três ensaios científicos: a Dioptrique, o Méteores e a Geométrie . Diferentemente de Galileu, Descartes considerou que era fundamental tentar expor o caráter objetivo da razão e indicar regras para alcançar esta objetividade (este conceito de objetividade é muito questionável hoje em dia. Qualquer escolha de qualquer método ou padrão de medição já demonstra, pela escolha em sí, um grau enorme de subjetividade).Nesse mesmo período, Descartes se envolve emocionalmente com Helène Jans, com o qual teve uma filhinha amada, Francine, que morreu aos cinco anos. A dor pela perda da filhinha querida acabou por dominar Descartes, deixando marcas em seu pensamento. Ele retomou a elaboração de seu Tratado de Metafísica, agora sob a forma de Meditações, obra que reflete uma alma angustiada. Este lado espiritualista de Descartes é frequentemente negligenciado pelos estudiosos modernos. Apesar das polêmicas que seus trabalhos metafísicos e científicos provocam, Descartes se lança à elaboração de um trabalho arrojado: os Principia philosophiae que é dedicada à princesa Isabel, filha de Frederico V. Graças a esta amizade entre Isabel e Descartes, temos uma coleção de cartas que esclarece muitos pontos obscuros de suas idéias, particulamente sua concepção da relação da alma (res cogitans) com o corpo e a matéria (res extensa), sobre a moral e o livre-arbítrio.Em 1649, Descartes aceita um convite da rainha Cristina da Suécia, e muda-se para o novo país. Mas isto acabou por causar a morte de Descartes, pois a rainha Cristina tinha o hábito de ter suas conversações às cinco horas da manhã, o que obrigava Descartes a se levantar muito cedo, o que, junto com o tremendo frio da Suécia, abalou a já frágil constituição física do filósofo. Assim, ao abandonar a corte sueca , Descartes pega uma grave pneumonia que o levou à morte, em 1650.


A Herança Cartesiana

Toda a concepção de mundo e de homem de Descartes se baseia na divisão da natureza em dois domínio opostos: o da mente ou espírito (res cogitans), a "coisa pensante", e o da matéria (res extensa), a "coisa extensa". Mente e matéria seriam criações de Deus, partida e ponto de referência comum a estas duas realidades. Para Descartes (embora os guardiões do racionalismo tentem passar por cima deste ponto), a existência de Deus era essencial à sua filosofia científica, embora seus seguidores de séculos posteriores fizessem de tudo para omitir qualquer referência explícita à Deus, mas mantendo a divisão cartesiana entre as duas realidade: as ciências humanas englobandas na res cogitans e as naturais na res extensa.Em sua concepção, influenciada pelos avanços na técnica da relojoaria holandesa, Descartes achava que o universo nada mais era que uma máquina. A natureza funcionava mecanicamente de acordo com leis matematizáveis. Esse quadro tornou-se o paradigma dominante na ciências até nossos dias. Ela passou a orientar a observação e produção científica até que a física do século XX passou a questionar seus pressupostos mecanicistas básicos.Em sua tentativa de construir uma ciência natural completa, Descartes ampliou sua concepção de mundo aos reinos biológicos. Plantas e animais nada mais eram que simples máquinas. Esta concepção criou raízes profundas com conseqüêcias não só a nível biológico, como psicológico (lembremo-nos do Behaviorismo, em Psicologia) e até mesmo econômico (manipulação comercial de animais sem consideração ética alguma). O corpo humano também era uma máquina, diferenciada porque seria habitada por uma alma inteligente, distinguível da máquina-corpo e ligado a ela pela glândula pituitária (é interessante observar que os espíritas dizem que esta glândula têm uma importância muito grande na interrelção espírito-corpo). As conseqüências dessa visão mecanicista da vida para a medicia foram óbvias, tendo exercido uma grande motivação no desenvolvimento da Psicologia nos seus primórdios. As conseqüências adversas, porém, são igualmente óbvias: na medicina, por exemplo, a adesão rígida a este modelo impede os médicos (os grandes cartesianos) de compreender como muitas das mais terríveis enfermidades da atualidade possuem um forte vínculo psicossomático e sócio-ambiental.O objetivo da "ciência" de Descartes era a de usar seu método analítico para formar uma descrição racional completa de todos os fenômenos naturais num único sistema preciso de princípios mecânicos regidos por relações matemáticas. É claro que ele não poderia executar sozinho este plano grandioso. Mas seu método de raciocínio e as linhas gerais da teoria dos fenômenos naturais que ofereceu embasaram o pensamento científico ocidental por três séculos (Capra, 1986). Mesmo que a sua visão de mundo apresente, hoje, sérias limitações, o método geral que ele nos deu ainda é muito útil na abordagem de problemas intelecutais e funciona muito bem. Ele possibilita, ainda, uma notável clareza de pensamento, o qual nos possibilita, inclusive, questionar sua própria origem e visão de mundo. Descartes é, realmente, uma figura fascinante.


por Carlos Antonio Fragoso Guimarães, baseado em G. Reale & D. Antiseri


Bibliografia:Reale, G. & Antiseri, D. - História da Filosofia, Volume II, Ed.Paulis, São Paulo, 1990.Descartes, R.. - O Discurso do Método, Coleção Universidade, Ediouro, 1986.Capra, F. - O Ponto de Mutação, Ed. Cultrix, São Paulo, 19886

PENSO LOGO EXISTO

O mundo.... se penso nos milhões de Km de extensão de nosso planeta, ás vezes acho que ainda é pequeno. Pequeno em comparação com nossa mente, nossa imaginação. O mundo aí fora é perigoso, mas não tanto quanto nossos pensamentos podem ser. Esse pode nos levar à ambientes, situações e momentos incríveis. Mas pode também nos tirar uma boa noite de sono, o apetite, a paz... Por que temos a tendência de viver mais esse lado negro da mente?! Já fui sequestrada por pensamentos insólitos e sem base, que me torturaram de dentro pra fora. Senti calafrios, tensão, cólera, gosto de fel na boca, agonia, medo... e o pior é que não tem como fugir. Te sugestiona à sua auto-destruição. Te faz errar com as pessoas, principalmente com as que você mais ama. Não te deixa raciocinar e suas palavras escapam da boca como um ataque de milhares de flechas. Você machuca as pessoas sem razão ou por qualquer motivo. E quando você se dá conta disso, e já é tarde, sua dor se torna maior ainda.


Mas também já tive beautiful things, pensamentos que me deram paz e amor inigualáveis ao meu espirito. Que me possibilitaram planejar, crescer, buscar e mesmo lutar. Você não consegue mentir, enganar ou omitir. Você deseja melhorar tudo e todos. Você passa a acreditar na bondade humana. Faz utopia do mundo. Seu cérebro é o mundo, com hemisfério direito e esquerdo, seu coração é seu sol e a lua (fígado? rim?).


Você já tentou parar de pensar? Ficar com a mente sem nenhum pensamento que seja? Tente. Parece existir apenas um buraco negro sugando tudo. Se você conseguir, pode depois, tentar pensar sobre uma pergunta: Nós somos fruto de um pensamento?

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Matemática da Vida




Mais um dia de vigoroso inverno. Ana sentia seu sangue congelado, correndo lentamente por cada veia e artéria mas pareciam se recusar chegar as extremidades de seu corpo. Já acostumou-se a não saber destinguir a dor do frio em suas mãos e pés levemente azulados da dor da fome que a despertava durante todo o sono. Encolhida sobre sua cama improvisada com ripas de madeira, restos de papel de propaganda política e uma coberta poída, alí estava tudo o que tinha, embaixo de um balcão do que teria sido um dia, uma bela igreja, hoje semi-destruída e saqueada, mas que ainda servia de abrigo para alguns "esquecidos". Suas botas não poderiam sair dos pés assim como cada peça de roupa ou os "ratos" poderiam levá-los.

Algumas vezes, chegava a se imaginar dormindo e não acordando mais. Enquanto dormia, podia forçar por sonhar os mais belos sonhos de uma jovem de 14 anos ou resgatar lembranças adormecidas. Lembranças de um passado onde tinha família, casa, irmãs, com sua mãe acordando-a pela manhã, uma mesa com comidase a ilusão de segurança de um lar. Um passado que a permitia sorrir.

Esforça para sentar seu corpo que apesar da magreza, parece pesar toneladas. Expira profunda e lentamente ao mesmo tempo que vai arrumando o lenço de sua cabeça, que a protege do frio e esconde sua cabeça raspada. O medo de doenças como tifo não permitia vaidades.

"Mais um dia..." pensava. "O que irei comer? "

Coloca a mão no bolso de seu casaco e retira um último pedaço de pão duro e meio bolorento. Tinha o tamanho de um pulso cerrado de uma criança de 5 anos. Fixa-o e o devora como uma fera devora sua presa. Agora teria um pouco de energia até que conseguisse ter sua próxima refeição.

Planejamento do dia: sobreviver e buscar comida. Ela não era a única nessa meta. Quase todos que restaram na cidade (mais da metade da população foi embora pro campo e outra parte morreu ou haviam sido mortos por todos os motivos possíveis), estavam sendo dizimados pelo "comunismo de guerra", onde os dominadores confiscavam toda a comida e esmagavam a vida de um povo doente e faminto que imploravam por paz e pão.

Ana levanta-se e caminha em direção à porta. Puxa uma das folhas encostada e observa a rua. A neve hoje não está tão espessa pois consegue ver metade descoberta de alguns corpos abandonados pela rua. Alguns soldados caminham conversando. Alguns operários solitários estão indo à fábrica. Não se via cães ou qualquer outra espécime de animais caminhando pelas ruas, não só pelo frio mas por agora serem artigos de luxo e serem observados não como animais de estimação, mas sim como alimento. Ana entendia agora, o outro sentido do que um dia aprendera na escola sobre a cadeia alimentar. O maior devora o menor. O mais forte devora o mais fraco. O governo os devorava. E eles? Quem e o que seria mais fraco? Ela sabia que a fome unia os homens mas se petrificava em lembrar de histórias sobre a mais terrivel união: a antropofagia. Todos esses corpos abandonados, dependendo de seu estado, tornavam-se parte dessa cadeia em meio ao desespero. Isso tudo enquanto milhares de toneladas de cereais envelheciam e apodreciam nos galpões das ferrovias.

Ana precisava encontrar uma forma de conseguir alimento. Não queria vender "favores" àqueles velhos asquerosos das fábricas. Já não aguentava mais sentir seus hálitos podres de desejos insanos e doentis sugando sua vitalidade e sonhos juvenis. Alguns chegavam ao extremo da brutalidade à ponto de marcarem seu corpo com ferro incandescente, como quem marca gado. Se não bastasse sua alma marcada pelos terrores do homem sua pele também carregava como um diário escrito com sua carne e sangue.

Esgueira seu corpo por entre as folhas da porta e sai à rua. Mãos nos bolsos, cabisbaixa mas com olhar atento à qualquer movimento, caminha silenciosamente próximo às paredes altas e cinzas, cravejadas por buracos de balas dos prédios, como se fosse um fantasma. Ou pelo menos tentava ser.

continua...

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Boa Noite!

Acordo aos gritos de desespero em meio à escuridão . Meu corpo molhado e meu rosto pálido denunciam meu terror. Demoro segundos que me parecem eternos, apoiando o peso de minha cabeça sobre os cotovelos em meu colchão, que mais me parecia um caixão, com a respiração ofegante e insuficiente para insuflar todo o meu pavor interno. O único som que me envolve é de meus batimentos cardíacos que parecem testar o limiar de meus tímpanos. Esses primeiros instantes de toda essa descarga adrenérgica deixa-me completamente desorientada. Não poderia reconhecer meu quarto. Fecho os olhos, respiro lentamente, tento me controlar mas o cheiro do medo que paira no ar não me permite calma. Abro os olhos lentamentes. Olho ao redor e tento reconhecer o ambiente. Estou deitada sobre uma grande cama de casal, com lençois de cetim de um tom claro mas não consigo destinguir exatamente a cor devido a penumbra em que se encontra o quarto. Ao meu lado direito uma grande janela que une o chão ao teto de algo em torno de 2m, com grande cortinas de voal que se movimentam devido a passagem da brisa noturna de uma das partes entreabertas.
Continuo a exploração. Observo a presença de um grande quadro vertical com uma figura feminina, uma escrivaninha em estilo muito provenciano com pilhas de papéis, tinteiros e um mata-borrão sobre sua superfície. Noto a presença de um candelabro ao chão. Estranhamente, quando chego à parte esquerda do quarto, nada posso ver além de um relógio marcando 3 horas e 15 minutos. O restante da parede me parece de um breu total.

Num impulso de coragem misturada com inconsequência, retiro-me da cama e coloco os pés no chão. Tenho a impressão de mergulhar meus pés em água. Olho para baixo mas o chão está coberto de uma névoa branca. Reparo na longa camisola de algodão que cobre meu corpo ainda gélido pelo suor. Lembro então do candelabro perto da escrivaninha. Começo a caminhar e agora tenho certeza da água no chão. À medida que caminho, o som de meus passos sobre a água ecoam pelo quarto. Abaixo-me e toco o candelabro. Sinto seu calor como que se tivesse sido usado recentemente. Acendo-o e aos poucos sua chama fraca vai aos poucos revelando-me cenas que nunca em minha sã consciência poderia criar.

Na parede esquerda, antes incógnita, agora percebo um grande espelho emoldurado em madeira talhada com cabeças angelicais e ornamentos ao estilo Luís XV. O relógio ainda continua à marcar 3h 15min. Caminho em sua direção, segurando a luz à altura de meus olhos, margeando a cama. Ao alcançar o espelho, vejo parte do quarto iluminado refletido. Mas não entendo a ausência de meu reflexo. Talvez uma brincadeira de ilusão de ótica plantada para testar as reações das pessoas. Fixo o olhar e elevo minha mão livre e com mais um passo toco o espelho. A sensação elétrica percorreu em cadeia todo meu corpo. Uma dor extrema golpeou meus rins pelas costas. Não pude me conter e mergulhada na dor, abaixei e encolhi como em posição fetal derrubando o candelabro que se apagou.

Instantâneamente, a dor desapareceu. Abri os olhos e apalpei o chão procurando o candelabro. Acendo-o novamente e olho à frente. Não conseguia entender. Agora eu estava olhando para o quarto em outro ângulo, da esquerda para a direita. Vou em direção à cama mas um vidro me impede. Bato continuamente forçando minha passagem, em vão. Olho para atrás e nada vejo além da escuridão de uma parede de tijolos antigos. Estava enclausurada num espaço de não mais que 2m quadrados. Tateio todo lugar. Grito à pedido de ajuda. Toda minha sensação de terror inicial se apodera de mim novamente. Em minha consciente vulnerabilidade, me acalmo e choro. Um choro de criança. Sento de frente ao vidro e abraço meus joelhos e choro. De repente, vejo a presença de alguém na cama à se levantar em sobressalto. Em meio as lágrimas também me levanto. Vejo uma mulher de costas com a respiração ofegante. Abaixo-me e pego a luz para visualizar melhor.

Olho à frente e me deparo com a mulher me fixando com seus olhos lagrimosos, num vestido de algodão e segurando um candelabro. Sou eu!!! Seus olhos de espanto são os meus! Apenas meu reflexo!?

Lentamente, seco as lágrimas, ajeito meus cabelos emaranhados pelo suor, respiro fundo e e murmuro:

"Apenas um pesadelo... "

O relógio marcava 3h 15 min.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Um Anjo no Canal



Estava uma noite à andar pelos canais, esperando mais um dia chegar ao fim. Fim de uma longa jornada. O que pretendo fazer dos dias que me restam? O que desejaria das minhas últimas horas de vida? Qual meu maior desejo? Que fiz do tempo em que vivi? Amei o bastante? Cantei, abracei e falei tudo o que queria? Pedi perdão e perdoei? Afaguei meus bichinhos com amor suficiente? Falei menos e escutei mais? Usei minhas palavras pra fortalecer quem me rodeia? Ajudei mais e critiquei menos? Admirei a natureza que me rodeia? Ouvi os pássaros cantando em meio ao barulho dos motores? Afinal, eu vivi?

Algo pra se pensar enquanto vivo. Sempre são nossas últimas horas. Quando os vermes estiverem nos comendo e nossa unidade estiver se juntando aos minerais da terra, pensar já não se fará necessário. Enquanto caminho eu penso.

Mais em frente paro e começo a observar a corrente no canal. Uma dança hipnotizante de águas num fundo negro. Enquanto me embalo nessa dança sinto a brisa me acariciando as poucas partes descobertas da minha face. Os pensamentos começam se acalmar e passo a descobrir algo parecido com o "nirvana". O fundo negro do canal toma conta de meus pensamentos. Tudo parece evoluir quando percebo uma sombra humana de um gigante, ou seria sobre-humana, ao meu lado direito. Tendo me manter mas algo parecido com uma respiração canina, parece se aproximar. Quando tenho a impressão de sentir o calor desse hálito animalesco, já não pude me conter mais e em sobressalto, me virei. Uma figura paterna aparentando uns 83 anos, de aproximadamente 1,60cm de altura e uns 70kg, com fartos cabelos brancos sobre seu rosto marcado pela experiência me fixou com seus olhos pequenos mas tão pesados que me petrificaram.

"Você tem uma vida pra me emprestar?" me perguntou com uma voz tão calma como de quem pergunta pelas horas.

"Vida?!" Talvez nossa diferença de línguas tenham me feito traduzir errado a palavra.

"Sim, vida, life, la vie, vita, leben... A minha está se esgotando, preciso de outra. Se você não estiver usando a sua, poderia me dá-la".

Me mantive atônita. Só tinha forças pra manter meu músculo masseter firme pra minha mandíbula não despencar. Como um pequenino homem à primeira vista, tão indefeso e doce, me causava tanto temor ? Seriam palavras dignas da insanidade que certas doenças causavam com a chegada da idade?

"Não sou insano!!!" disse o senhor com um olhar que de tão profundo, achei que cheguei a ver a porta do inferno com labaredas de chamas.

Meu Deus! De tão alto que pensei ele escutou!

"Deixe me apresentar... meu nome é Leigh. Tenho pouco tempo pra conversar. Já se aproxima da meia noite. Preciso me apressar. Você não respondeu minha pergunta."

"Praz..." estendi a mão num ato instantâneo e impensado, mas tarde demais. Quando ele tocou em minha mão, minha alma se congelou. Um formigamento se apoderou de mim por alguns segundos. "Meu nome é..."

"Eu sei seu nome..." disse enquanto apertava educadamente minha mão.

Minha expressão deveria ser das piores. Já não conseguia mais raciocinar direito. O que era tudo isso?

"Então, minha querida, posso pegar a sua? Tenho te observado à tempos e percebo que não se importa muito com ela. De todas que já levei, acho que a sua me traria a maior satisfação. Nesse mundo coleciono aquelas que tudo tiveram e puderam e ainda assim não entenderam seu sentido. Acabam por fazer que sua vida passe em branco. Pois bem, você, 30 anos, nunca acreditou no amor, achava que tudo não passava de ações de hormônios e feromônios no cérebro. Não se interessou pela continuidade da vida pois filhos lhe tirariam a liberdade. Não fincou raizes e nada plantou. Queria a vida tão livre que de tanta liberdade se perdeu. Pois bem, dê-me ela... tenho planos infinitos..."

"Nunca!!! Não entendo como pode saber tudo isso, mas não!!! Eu devo estar no limite da loucura, à borda do precipício da insanidade. Mas eu amo a vida mais do que nunca. Quero tentar recuperar tudo o que deixei pra traz. Não vou desistir dela assim. Quero ver o sol raiar amanhã e trazendo o cheiro do orvalho da madrugada que se evapora lentamente. Quero me aquecer nos braços de quem amo e perceber a vida em cada ser que vibra nesse mundo..."

"Belas palavras pra quem ensaiava à alguns minutos um salto sem volta ao fundo do canal..."

Perplexa, segurei minha respiração. Isso mesmo, eu estava prestes à tal ato. Premeditei o fim. Quem era esse homem? Um anjo caído? Mensageiro da morte? Ou apenas um louco?

"Meu tempo se esgota e o seu também, não posso mais esperar... me dê... rápido"

Senti um desejo maior do que nunca de viver. Seja quem fosse esse ser, divino ou diabólico, despertou-me uma fome de vida, um temor imenso em perdê-la que lutaria até o fim por ela.

"Sinto muito se cheguei à esse limite de desespero onde premeditei o fim de minha vida. Mas agradeço ao senhor por me mostrar que meu amor por ela é maior do que seu desejo em apossa-la..."

Um grunhido animalesco e enfurecido saiu do fundo de sua garganta enquanto elevava seus braços ao alto e ajoelhava na calçada histórica daquele local que presenciou séculos de fatos mas talvez nada como aquilo. Ajoelhado, cabisbaixo, foi erguendo lentamente sua cabeça. Seu olhar já não era pesado, mas de uma brandura que me acalmava. Sua imagem foi instantaneamente evaporando como uma fumaça negra até desaparecer em segundos. Fechei meus olhos com as mãos, respirei fundo e fui abrindo aos poucos. Nada. Vierei e procurei por todos os lados. Ele desapareceu. Suspirei e antes que pudesse pensar em qualquer coisa um sussurro em meus ouvidos:

"Vivaaa..."

Olhei novamente a correnteza do canal e senti uma paz profunda. Já não havia ninguém nas ruas e pude apreciar a beleza das luzes solitárias que refletiam na água. Que teria sido tudo isso? Minha cabeça querendo me pregar peças?! Já é tarde, passado 2 minutos da meia noite. Caminhei em direção à casa. Sorria.

"Amanhã é um mais um grande dia"...

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Meu maior tesouro



Meu maior tesouro tem um nome. Algo como Fé, Amor e Paz. Com ele tenho tudo. Com ele descobri o mundo diante meus olhos. Por ele escrevo aqui, treinando o tráfego de sentimentos e na Rodovia coração-cabeça-teclado onde terminam em palavras. Isso mesmo, sou uma discípula de toda essa situação. Quando eu achar que estarei pronta, tentarei me apresentar ao mestre. Todos, pelo menos acredito, tentam se descobrir bom em algo. Eu ainda estou na busca.
Passei a vida toda buscando o sentido da minha vida. Li em vários lugares que o Amor é o sentido mas hoje acredito que o amor é que traz o sentido.
Amor... quantos milhões já tentaram filosofar sobre ele. Literaturas inteiras, credos, filmes... cada um com sua visão, sua loucura e seu fanatismo. Uma coisa é certa, amor não tem um único significado. Amor é infinito. Amor é o início de todos os outros sentimentos. Nós, humanos, em nossa infantil jornada pela vida é que o conjugamos erroneamente. Amor por si só é incondicional. Não se prende à um único sentido. É todos esses sentidos do amor que vamos conhecendo ao longo da vida.
Esse espaço é pra mim uma forma de expressar todo esse amor. Uma terapia. E uma forma de, quem sabe, poder contribuir pra essa corrente de energia pelo mundo. Não tenho pretensão alguma de ser escritora. Apenas me entender com as palavras. Quero poder surpreender meu tesouro, deixá-lo admirado. Escreverei alguns contos, pensamentos, as vezes sem nexo à primeira vista. E também à segunda...



terça-feira, 9 de outubro de 2007

Open Your Eyes- Snow Patrol





Pra quem não conhece essa versão de clip rodado em Paris, vale muito a pena. Suspiros....