
Mais um dia de vigoroso inverno. Ana sentia seu sangue congelado, correndo lentamente por cada veia e artéria mas pareciam se recusar chegar as extremidades de seu corpo. Já acostumou-se a não saber destinguir a dor do frio em suas mãos e pés levemente azulados da dor da fome que a despertava durante todo o sono. Encolhida sobre sua cama improvisada com ripas de madeira, restos de papel de propaganda política e uma coberta poída, alí estava tudo o que tinha, embaixo de um balcão do que teria sido um dia, uma bela igreja, hoje semi-destruída e saqueada, mas que ainda servia de abrigo para alguns "esquecidos". Suas botas não poderiam sair dos pés assim como cada peça de roupa ou os "ratos" poderiam levá-los.
Algumas vezes, chegava a se imaginar dormindo e não acordando mais. Enquanto dormia, podia forçar por sonhar os mais belos sonhos de uma jovem de 14 anos ou resgatar lembranças adormecidas. Lembranças de um passado onde tinha família, casa, irmãs, com sua mãe acordando-a pela manhã, uma mesa com comidase a ilusão de segurança de um lar. Um passado que a permitia sorrir.
Esforça para sentar seu corpo que apesar da magreza, parece pesar toneladas. Expira profunda e lentamente ao mesmo tempo que vai arrumando o lenço de sua cabeça, que a protege do frio e esconde sua cabeça raspada. O medo de doenças como tifo não permitia vaidades.
"Mais um dia..." pensava. "O que irei comer? "
Coloca a mão no bolso de seu casaco e retira um último pedaço de pão duro e meio bolorento. Tinha o tamanho de um pulso cerrado de uma criança de 5 anos. Fixa-o e o devora como uma fera devora sua presa. Agora teria um pouco de energia até que conseguisse ter sua próxima refeição.
Planejamento do dia: sobreviver e buscar comida. Ela não era a única nessa meta. Quase todos que restaram na cidade (mais da metade da população foi embora pro campo e outra parte morreu ou haviam sido mortos por todos os motivos possíveis), estavam sendo dizimados pelo "comunismo de guerra", onde os dominadores confiscavam toda a comida e esmagavam a vida de um povo doente e faminto que imploravam por paz e pão.
Ana levanta-se e caminha em direção à porta. Puxa uma das folhas encostada e observa a rua. A neve hoje não está tão espessa pois consegue ver metade descoberta de alguns corpos abandonados pela rua. Alguns soldados caminham conversando. Alguns operários solitários estão indo à fábrica. Não se via cães ou qualquer outra espécime de animais caminhando pelas ruas, não só pelo frio mas por agora serem artigos de luxo e serem observados não como animais de estimação, mas sim como alimento. Ana entendia agora, o outro sentido do que um dia aprendera na escola sobre a cadeia alimentar. O maior devora o menor. O mais forte devora o mais fraco. O governo os devorava. E eles? Quem e o que seria mais fraco? Ela sabia que a fome unia os homens mas se petrificava em lembrar de histórias sobre a mais terrivel união: a antropofagia. Todos esses corpos abandonados, dependendo de seu estado, tornavam-se parte dessa cadeia em meio ao desespero. Isso tudo enquanto milhares de toneladas de cereais envelheciam e apodreciam nos galpões das ferrovias.
Ana precisava encontrar uma forma de conseguir alimento. Não queria vender "favores" àqueles velhos asquerosos das fábricas. Já não aguentava mais sentir seus hálitos podres de desejos insanos e doentis sugando sua vitalidade e sonhos juvenis. Alguns chegavam ao extremo da brutalidade à ponto de marcarem seu corpo com ferro incandescente, como quem marca gado. Se não bastasse sua alma marcada pelos terrores do homem sua pele também carregava como um diário escrito com sua carne e sangue.
Esgueira seu corpo por entre as folhas da porta e sai à rua. Mãos nos bolsos, cabisbaixa mas com olhar atento à qualquer movimento, caminha silenciosamente próximo às paredes altas e cinzas, cravejadas por buracos de balas dos prédios, como se fosse um fantasma. Ou pelo menos tentava ser.
continua...

